Sabe aquela sensação de arrependimento? Aquele "ah, se eu tivesse feito aquilo ou dito aquela outra coisa"? E aquele ditado que diz que o pior arrependimento é o que vem daquilo que não fazemos? Hoje eu sei o que é isso. Pela primeira vez na vida me arrependo de alguma coisa que deixei de fazer. Pela primeira vez me arependo de verdade.
Sempre fui muito certinha e boazinha demais para fazer algo muito errado e magoar alguém de quem gosto. Certinha demais para me permitir certas coisas, como a experimentação do amor... Ser uma pessoa certinha demais tem seu preço, às vezes pode custar uma possível grande história de amor...
quarta-feira, 12 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
O lado bom de um blog que ninguém lê
Ninguém lê. Esse é o lado bom. Quando você escreve nelhores ao invés de melhores e só se dá conta disso meses depois, não faz diferença. Ninguém viu mesmo. Ou quando você publica um texto sem craze onde deveria ter uma craze. Pode acontecer com qualquer um. Mas geralmente, em um blog, pessoas veem esse ti´po de coisa. Só que ninguém vê quando ninguém lê. É como um diário público anônimo. Invisível. Perfeito para o tipo de pessoa que se expõe sem querer ser vista. Não que eu seja esse tipo de pessoa ou esse seja o caso do meu blog, claro. Nunca. É só uma reflexão sobre algo que pode ser a realidade de alguém. Do blog de alguém.Um pobre alguém por aí... Com um lado bom.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Contagiante, emocionante e envolvente
Teatro, música, magia, poesia e fantasia. Isso é O Teatro Mágico, um grupo de São Paulo que mescla teatro e música como ninguém. Suas músicas transmitem paz e tranquilidade. Uma visão poética e otimista, muitas vezes engraçada e sempre reflexiva sobre a vida. O alento que faltava, o tipo de música que há muito não se via... O Teatro Mágico é o tipo ideal de entretenimento para amantes de todo tipo de arte.
http://www.oteatromagico.mus.br/
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=6678432
http://www.oteatromagico.mus.br/
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=6678432
segunda-feira, 8 de março de 2010
Da fantasia à vida real
Tudo na vida muda. Às vezes para melhor, às vezes para pior. Ou simplesmente muda. Gostaria de saber se o que mudou foi para o melhor...
Sempre sonhei demais. Passei a vida lendo romances e imaginando o dia em que a minha vida seria como um deles. Enquanto esse dia não chegava eu era feliz na minha fantazia. Não importava o livro, não importava como seriam os personagens, o contexto histórico ou social, eu sempre estava lá e o meu amor também. Assim foi por um bom tempo... Saía do livro para o mundo real à espera de que o mundo real se transformasse no meu próprio romance com final feliz e muito mel.
E assim foi..., por um bom tempo. Até o dia em que encontrei alguém, alguém que pensei ter julgadso com a cautela necessária para não me precipitare acreditei finalmente ser meu príncipe encantado. Pensei ter encontrado o mocinho das minhas fantazias que me faria a mocinha de um lindo romance. Quando acreditei e apostei nisso... as linhas do meu próprio romance começaram a se desenrolar em letras cor-de-rosa em páginas coloridas. Parecia um sonho. Era melhor do que eu poderia imaginar, era o melhor romance de todos! Nem Nora Roberts seria capaz de imaginar melhor!
A cada dia que passava mais e mais letras cor-de-rosa preenchiam as páginas coloridas. Algumas letras e vez ou outra algumas palavras caíam na opacidade do real fora da página, mas até mesmo a fantasia precisa da realidade para se manter, afinal toda história é uma versão do real, melhor ou pior. E era sem dúvida a melhor versão daquilo que a vida real era capaz de ser! E eu estava vivendo...
Com o tempo um maior número de palavras começou a cair da página colorida, mas elas sempre voltavam a se alinhar... Até que um dia, letra por letra, as palavras começaram a cair da página, levando consigo frases e parágrafos interiros ao abismo da opacidade. E agora esporadicamente algumas poucas palavras, uma ou outra linha, retornam ou surgem na página colorida, impossibilitando o meu sonhado final feliz.
Parece que minha história mudou e a minha fantasia virou vida real... simples e opaca.
Sempre sonhei demais. Passei a vida lendo romances e imaginando o dia em que a minha vida seria como um deles. Enquanto esse dia não chegava eu era feliz na minha fantazia. Não importava o livro, não importava como seriam os personagens, o contexto histórico ou social, eu sempre estava lá e o meu amor também. Assim foi por um bom tempo... Saía do livro para o mundo real à espera de que o mundo real se transformasse no meu próprio romance com final feliz e muito mel.
E assim foi..., por um bom tempo. Até o dia em que encontrei alguém, alguém que pensei ter julgadso com a cautela necessária para não me precipitare acreditei finalmente ser meu príncipe encantado. Pensei ter encontrado o mocinho das minhas fantazias que me faria a mocinha de um lindo romance. Quando acreditei e apostei nisso... as linhas do meu próprio romance começaram a se desenrolar em letras cor-de-rosa em páginas coloridas. Parecia um sonho. Era melhor do que eu poderia imaginar, era o melhor romance de todos! Nem Nora Roberts seria capaz de imaginar melhor!
A cada dia que passava mais e mais letras cor-de-rosa preenchiam as páginas coloridas. Algumas letras e vez ou outra algumas palavras caíam na opacidade do real fora da página, mas até mesmo a fantasia precisa da realidade para se manter, afinal toda história é uma versão do real, melhor ou pior. E era sem dúvida a melhor versão daquilo que a vida real era capaz de ser! E eu estava vivendo...
Com o tempo um maior número de palavras começou a cair da página colorida, mas elas sempre voltavam a se alinhar... Até que um dia, letra por letra, as palavras começaram a cair da página, levando consigo frases e parágrafos interiros ao abismo da opacidade. E agora esporadicamente algumas poucas palavras, uma ou outra linha, retornam ou surgem na página colorida, impossibilitando o meu sonhado final feliz.
Parece que minha história mudou e a minha fantasia virou vida real... simples e opaca.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Na noite das barricadas, a esperança é uma canção
A noite do Haiti é um canto infinito que parte do coração de Delmas e chega aos Champs de Mars e ao Palais National. A noite do Haiti é o canto dos vivos que choram os mortos e rezam por si mesmos. É o canto desesperado dos prisioneiros de Petionville, o condomínio-parque que foi atingido pelos terremotos duas vezes. É o canto vudu dessa mulher que agora não canta, não fala, mas grita a raiva reprimida de dia, colocando-se atrás de um pequeno grupo de pessoas. É um canto fúnebre infinito, que mistura orgulho negro e síntese crioula, as melodias esquecidas dos franceses e as canções ouvidas na rádio até ontem, antes que o grande tremor destruísse também a programação da Signal Fm, transformando-a em Rádio Terremoto.
A noite do Haiti não é apenas dos desalojados e dos sem-teto. Tomem, por exemplo, Benoit Plejeudi. "Veem? Aquela é a minha casa". Delmas está entre as zonas mais atingidas. As casas que caíram sobre si mesmas. O terremoto fez ao Citibank aquilo que nem a recessão havia ousado: todo no chão de um só golpe, ruínas sobre ruínas. Em cada esquina das ruas, os cartazes publicitários de Nino Cell anunciam maravilhas: quarta-feira passada, ele também fechou a sua sede protegida por aquele endereço propiciatório, Rue des Miracles, 117. Uma catástrofe. Para cada cada que veio abaixo, haviam talvez quatro, cinco que eles haviam erigido. O tremor de assestamento de ontem não teve piedade. Agora, o trabalho de demolição do Haiti está quase completo. Mas com a cidade destruída, aquele pouco que resta de pé é um tesouro ao qual se agarrar. O que fazer, senão? Misturar-se aos milhares de refugiados de Petionville, assediados pelos bandos de ladrões e estupradores?
"Aquela é a minha casa", diz Benoit, com a filhinha no braço, "esta é a minha família, estes são os meus vizinhos". O acampamento nasce do nada enquanto o sol está declinando. É um êxodo invisível e silencioso. Durante todo o dia, as construções achatadas são habitadas como se nada tivesse ocorrido. O quadro é surreal: na casa de Jeff Horacio ninguém se deu ao trabalho de colocar de pé a árvore de Natal derrubada pelo tremor. Mas isso ocorre de dia. De noite, todos saem: nas costas, um cobertor, um travesseiro, um lençol, qualquer coisa, enfim, que possa se transformar em uma cama. Lentamente, as ruas de Porto Príncipe são inundadas por um rio de famílias. E é então que a noite dos cantos começa.
Cabe ao chefe de família dar o início. Agora, é o momento de Benoit. Começa um canto em francês que, aos ouvidos de um ocidental ignorante, se parece às velhas canções de Henri Salvador. E, ao invés, aquela música tão relaxada e sensual é um canto religioso. Aqui no Haiti basta acenar à melodia para arrancar um sorriso de compaixão, de partilha de um destino. É "Reference 6 Creole", a canção mais conhecida dos "Chants d'Esperance", uma coleção de cantos da Igreja evangélica. "Desde que te conheço / desde que vi a tua luz". Em um segundo, toda a rua é um canto. Até os cães param, que, desde a tarde do terremoto, nunca deixaram de latir.
Agora, Benoit está de pé como um regente de orquestra. Nem o canto para mais. Dando a volta na esquina – pó e britas mesmo antes do terremoto – e recomeça outro.
Cada beco protegido por barricadas improvisadas: blocos de pedras, galões de gasolina, alguns pedaços de madeira. Uma proibição de acesso tímida. Servirá? Cada noite é uma aposta. Mas pelo menos aqui não existe o pesadelo do International Club. Não, não se deixem enganar pelo nome. O International Club faz parte do parque mais amplo de Petionville. Do lado de fora, estão, porém, as insígnias do ministério: "Protegemos o meio ambiente". Qual? Petit Bossimys é um jovem voluntário de Book of Hope. A associação evangélica está entre as mais ativas em nível local: haitianos por haitianos. Quando chega a noite, o International Club é um acampamento sem fim. E se no desespero há uma classificação, os cantos daqui vão direto ao primeiro lugar. Aqui, vocês nunca ouviriam "Haiti Cheri": "Terra do mar, maravilhoso sol". Isso é coisa da Caraibi Fm: esqueçam-na. Aqui até os "Chants d'Esperance" parecem de desespero.
Bisha Laroque é o médico do campo. O único. "Cerca de 20 voluntários entre enfermeiros e rapazes de serviços gerais. Mas como fazemos? Falta-nos tudo". A Cruz Vermelha, a ONU, as ajudas? "Nada de nada de nada. Precisamos de gases, barracas. Precisamos de água, comida. Precisamos de remédios. Este fedor? Não temos água para beber: como podemos pensar no resto?".
O doutor Laroque até segunda-feira passada trabalhava no Dash, o hospital de Dalmas 35, uma outra estação do calvário do Haiti: o terremoto impiedoso também fechou aquele. Agora, Laroque une sua voz aos cantos da noite. Diz Luiji Looco, que é o chefe do campo: "A segurança? Fazemos o possível. Na noite anterior, por exemplo, houve um saque e só dois estupros. Poucos? Um estupro é um estupro. Ou queremos que o terremoto nos tire também o último gesto de raiva e piedade?".
Falta-nos pouco. O espetáculo de Champs de Mars de dia há é um choque, mas de noite é uma alucinação. Aqui é onde os vivos se confundem com os mortos, a poucos passos do hospital com as pilhas de cadáveres. Champs de Mars nunca foi um parque de princípios, mas nem esse pesadelo que se tornou agora. À sombra do Palais Nacional é um espetáculo de "Day After". Não há nem a dignidade do acampamento assediado de Petionville. Aqui estamos no coração da cidade, e o campo foi entregue à iniciativa individual. Tradução: camas de pobres desesperados. Todo o fedor de Haiti está reunido aqui em cima. Render-se? Duas missionárias, também evangélicas, se desafiam à distância: basta entoar o enésimo canto. Em torno das mulheres já há um grupo de pessoas: mãos erguidas ao céu, "Deus doçura, Deus esperança". Do campo que não dorme nunca, as crianças alternam os choros com a canção: "Deus doçura, Deus esperança".
Esta noite também irá terminar. O galo começa a despertar nos becos de Delmas. Na metrópole do terceiro mundo, é um retorno ao futuro: a zona rural há tempo havia retomado a cidade, o terremoto acelerou o processo. Os galinheiros das residências também foram destruídos. Todos livres: assim como os 4 mil detidos que fugiram da prisão arruinada. Dentro de pouco tempo, esta noite também irá terminar, e todos voltarão a subir novamente o rio de rua com os travesseiros e alguns trapos debaixo do braço.
Mas há quem ainda não tenha se dado conta do sono que, por poucas horas, faz esquecer quase tudo. Um último canto, que, desta vez, parece verdadeiramente inconfundível, mas talvez é melhor ouvir duas, três, quatro vezes para não errar. Sob as estrelas do terremoto agora cantam: "Voar, voar". Só essas duas palavras: não vão mais adiante do que isso. Mas na noite dos cantos do Haiti destruído, já é um outro milagre.
Fonte: IHU
A noite do Haiti não é apenas dos desalojados e dos sem-teto. Tomem, por exemplo, Benoit Plejeudi. "Veem? Aquela é a minha casa". Delmas está entre as zonas mais atingidas. As casas que caíram sobre si mesmas. O terremoto fez ao Citibank aquilo que nem a recessão havia ousado: todo no chão de um só golpe, ruínas sobre ruínas. Em cada esquina das ruas, os cartazes publicitários de Nino Cell anunciam maravilhas: quarta-feira passada, ele também fechou a sua sede protegida por aquele endereço propiciatório, Rue des Miracles, 117. Uma catástrofe. Para cada cada que veio abaixo, haviam talvez quatro, cinco que eles haviam erigido. O tremor de assestamento de ontem não teve piedade. Agora, o trabalho de demolição do Haiti está quase completo. Mas com a cidade destruída, aquele pouco que resta de pé é um tesouro ao qual se agarrar. O que fazer, senão? Misturar-se aos milhares de refugiados de Petionville, assediados pelos bandos de ladrões e estupradores?
"Aquela é a minha casa", diz Benoit, com a filhinha no braço, "esta é a minha família, estes são os meus vizinhos". O acampamento nasce do nada enquanto o sol está declinando. É um êxodo invisível e silencioso. Durante todo o dia, as construções achatadas são habitadas como se nada tivesse ocorrido. O quadro é surreal: na casa de Jeff Horacio ninguém se deu ao trabalho de colocar de pé a árvore de Natal derrubada pelo tremor. Mas isso ocorre de dia. De noite, todos saem: nas costas, um cobertor, um travesseiro, um lençol, qualquer coisa, enfim, que possa se transformar em uma cama. Lentamente, as ruas de Porto Príncipe são inundadas por um rio de famílias. E é então que a noite dos cantos começa.
Cabe ao chefe de família dar o início. Agora, é o momento de Benoit. Começa um canto em francês que, aos ouvidos de um ocidental ignorante, se parece às velhas canções de Henri Salvador. E, ao invés, aquela música tão relaxada e sensual é um canto religioso. Aqui no Haiti basta acenar à melodia para arrancar um sorriso de compaixão, de partilha de um destino. É "Reference 6 Creole", a canção mais conhecida dos "Chants d'Esperance", uma coleção de cantos da Igreja evangélica. "Desde que te conheço / desde que vi a tua luz". Em um segundo, toda a rua é um canto. Até os cães param, que, desde a tarde do terremoto, nunca deixaram de latir.
Agora, Benoit está de pé como um regente de orquestra. Nem o canto para mais. Dando a volta na esquina – pó e britas mesmo antes do terremoto – e recomeça outro.
Cada beco protegido por barricadas improvisadas: blocos de pedras, galões de gasolina, alguns pedaços de madeira. Uma proibição de acesso tímida. Servirá? Cada noite é uma aposta. Mas pelo menos aqui não existe o pesadelo do International Club. Não, não se deixem enganar pelo nome. O International Club faz parte do parque mais amplo de Petionville. Do lado de fora, estão, porém, as insígnias do ministério: "Protegemos o meio ambiente". Qual? Petit Bossimys é um jovem voluntário de Book of Hope. A associação evangélica está entre as mais ativas em nível local: haitianos por haitianos. Quando chega a noite, o International Club é um acampamento sem fim. E se no desespero há uma classificação, os cantos daqui vão direto ao primeiro lugar. Aqui, vocês nunca ouviriam "Haiti Cheri": "Terra do mar, maravilhoso sol". Isso é coisa da Caraibi Fm: esqueçam-na. Aqui até os "Chants d'Esperance" parecem de desespero.
Bisha Laroque é o médico do campo. O único. "Cerca de 20 voluntários entre enfermeiros e rapazes de serviços gerais. Mas como fazemos? Falta-nos tudo". A Cruz Vermelha, a ONU, as ajudas? "Nada de nada de nada. Precisamos de gases, barracas. Precisamos de água, comida. Precisamos de remédios. Este fedor? Não temos água para beber: como podemos pensar no resto?".
O doutor Laroque até segunda-feira passada trabalhava no Dash, o hospital de Dalmas 35, uma outra estação do calvário do Haiti: o terremoto impiedoso também fechou aquele. Agora, Laroque une sua voz aos cantos da noite. Diz Luiji Looco, que é o chefe do campo: "A segurança? Fazemos o possível. Na noite anterior, por exemplo, houve um saque e só dois estupros. Poucos? Um estupro é um estupro. Ou queremos que o terremoto nos tire também o último gesto de raiva e piedade?".
Falta-nos pouco. O espetáculo de Champs de Mars de dia há é um choque, mas de noite é uma alucinação. Aqui é onde os vivos se confundem com os mortos, a poucos passos do hospital com as pilhas de cadáveres. Champs de Mars nunca foi um parque de princípios, mas nem esse pesadelo que se tornou agora. À sombra do Palais Nacional é um espetáculo de "Day After". Não há nem a dignidade do acampamento assediado de Petionville. Aqui estamos no coração da cidade, e o campo foi entregue à iniciativa individual. Tradução: camas de pobres desesperados. Todo o fedor de Haiti está reunido aqui em cima. Render-se? Duas missionárias, também evangélicas, se desafiam à distância: basta entoar o enésimo canto. Em torno das mulheres já há um grupo de pessoas: mãos erguidas ao céu, "Deus doçura, Deus esperança". Do campo que não dorme nunca, as crianças alternam os choros com a canção: "Deus doçura, Deus esperança".
Esta noite também irá terminar. O galo começa a despertar nos becos de Delmas. Na metrópole do terceiro mundo, é um retorno ao futuro: a zona rural há tempo havia retomado a cidade, o terremoto acelerou o processo. Os galinheiros das residências também foram destruídos. Todos livres: assim como os 4 mil detidos que fugiram da prisão arruinada. Dentro de pouco tempo, esta noite também irá terminar, e todos voltarão a subir novamente o rio de rua com os travesseiros e alguns trapos debaixo do braço.
Mas há quem ainda não tenha se dado conta do sono que, por poucas horas, faz esquecer quase tudo. Um último canto, que, desta vez, parece verdadeiramente inconfundível, mas talvez é melhor ouvir duas, três, quatro vezes para não errar. Sob as estrelas do terremoto agora cantam: "Voar, voar". Só essas duas palavras: não vão mais adiante do que isso. Mas na noite dos cantos do Haiti destruído, já é um outro milagre.
Fonte: IHU
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
O monopólio na mídia
Há muitos filmes que retratam o poder da mídia, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Cidadão Kane é apenas mais um deles, pois mostra o poder de um magnata da imprensa, assim como foram Willian Hearst nos EUA e Assis Chateaubriand e Roberto Marinho no Brasil. Como nos mostra o filme e também a realidade, quem tem o monopólio da imprensa, tem também o monopólio do povo.
A imprensa (e a mídia em geral) é produtora de sentido e esse sentido, ao chegar à população, pode alternar o cenário social. O filme A Montanha dos Sete Abutres é um exemplo disso. O jornalista central da história manipula a situação, alternando o sentido dos fatos, gerando mais conteúdo para o seu jornal, comoção da população e monopólio da notícia. Eis então a palavra chave para se entender a concepção do jornalismo.
O monopólio é, ainda hoje, embora não tanto quanto já foi um dia, a sombra que oculta a população de si mesma, pois ao conceder o poder a determinado veículo que se apropria dos fatos produzindo o sentido que será lançado aos cidadãos, impede a mesma população de ter acesso a outras versões e a novos sentidos. Foi devido ao poder monopólico do jornal de Hearst em 1898 nos EUA que se iniciou a guerra hispano-americana, explicitamente incentivada por Hearst. Além do mais, o monopólio, assim como o oligopólio, determina quem dita o que é e o que não é noticia, fechando os olhos das pessoas para tudo aquilo que não lhes convém ser visto, como a corrupção de alguns governantes apoiados pela mídia.
Como já foi dito aqui, quem tem poder sobre a mídia tem poder sobre o publico dessa mesma mídia. Um bom exemplo desse domínio foi a “censura” movida na chamada “justiça” pelo dono do império Globo de Televisão, Roberto Marinho, ao documentário Muito Além do Cidadão Kane, produzido pelo inglês Simon Hartog. O filme que conta a história da Rede Globo foi proibido no Brasil desde sua estreia em 1993.
Esse tipo de coisa “impede que o país cresça democraticamente e se torne socialmente mais justo. A democracia [...] precisa de maior diversidade informativa e de amplo direito à comunicação. Para que isso se torne realidade, é necessário modificar a lógica que impera no setor e que privilegia os interesses dos grandes grupos econômicos” . Por isso, para abrir os olhos da sociedade, clarear as sombras causadas pelo domínio sobre a imprensa e da imprensa sobre o público, são tão importantes a mídias alternativas independentes. Uma televisão pública, não estatal, independente financeiramente seria o ideal para o exercício da cidadania e da função social do jornalismo efetivamente.
A imprensa (e a mídia em geral) é produtora de sentido e esse sentido, ao chegar à população, pode alternar o cenário social. O filme A Montanha dos Sete Abutres é um exemplo disso. O jornalista central da história manipula a situação, alternando o sentido dos fatos, gerando mais conteúdo para o seu jornal, comoção da população e monopólio da notícia. Eis então a palavra chave para se entender a concepção do jornalismo.
O monopólio é, ainda hoje, embora não tanto quanto já foi um dia, a sombra que oculta a população de si mesma, pois ao conceder o poder a determinado veículo que se apropria dos fatos produzindo o sentido que será lançado aos cidadãos, impede a mesma população de ter acesso a outras versões e a novos sentidos. Foi devido ao poder monopólico do jornal de Hearst em 1898 nos EUA que se iniciou a guerra hispano-americana, explicitamente incentivada por Hearst. Além do mais, o monopólio, assim como o oligopólio, determina quem dita o que é e o que não é noticia, fechando os olhos das pessoas para tudo aquilo que não lhes convém ser visto, como a corrupção de alguns governantes apoiados pela mídia.
Como já foi dito aqui, quem tem poder sobre a mídia tem poder sobre o publico dessa mesma mídia. Um bom exemplo desse domínio foi a “censura” movida na chamada “justiça” pelo dono do império Globo de Televisão, Roberto Marinho, ao documentário Muito Além do Cidadão Kane, produzido pelo inglês Simon Hartog. O filme que conta a história da Rede Globo foi proibido no Brasil desde sua estreia em 1993.
Esse tipo de coisa “impede que o país cresça democraticamente e se torne socialmente mais justo. A democracia [...] precisa de maior diversidade informativa e de amplo direito à comunicação. Para que isso se torne realidade, é necessário modificar a lógica que impera no setor e que privilegia os interesses dos grandes grupos econômicos” . Por isso, para abrir os olhos da sociedade, clarear as sombras causadas pelo domínio sobre a imprensa e da imprensa sobre o público, são tão importantes a mídias alternativas independentes. Uma televisão pública, não estatal, independente financeiramente seria o ideal para o exercício da cidadania e da função social do jornalismo efetivamente.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Confiaremos em jornalistas sem diploma?
Eduardo Cunha*
RIO - Você, cidadão, confiaria o seu filho para uma cirurgia com um médico sem diploma? O que dizer de um advogado que sequer frequentou bancas universitárias e tampouco ostenta a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)? Obviamente que o mesmo vale para o cenário atual da imprensa. A reflexão é pertinente (e urgente), sobretudo por conta do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista após decisão, em junho, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A imprensa tem um papel essencial para a construção da história brasileira, isso desde o Império. Daqueles primeiros pasquins nasceu o processo de democratização do Estado. Foram aqueles pioneiros jornalistas que descortinaram as mazelas sociais e políticas que sempre atemorizaram nossa nação. Após 200 anos da constituição de uma imprensa representativa e com reconhecimento internacional, deparamo-nos com uma postura surpreendente do Supremo. Se o Poder Judiciário ignora a relevância histórica do papel dos jornalistas para o país, o mesmo não se pode dizer do Poder Legislativo.
O fato de representar uma atividade profissional que repercute na vida de todos nós, cidadãos brasileiros, bastaria para que os ministros do STF fossem, em uníssono, favoráveis à obrigatoriedade do diploma, que existe há cerca de 40 anos. Definitivamente, as técnicas de entrevistar, reportar e editar exigem uma qualificação profissional devidamente referendada por um diploma emitido por instituições de ensino reconhecidas pelo Ministério da Educação.
Desde a redemocratização, os brasileiros vivenciam arduamente um processo de aperfeiçoamento da vida institucional. Nesse período, várias crises políticas e econômicas colocaram em xeque as virtudes da democracia, mas em nenhum momento nossa sociedade fraquejou na crença de que esse é o único caminho, se queremos consolidar a maturidade da nossa nação.
O alicerce desse edifício é a Constituição de 1988, obra pela qual muitos brasileiros e segmentos sociais deram inestimáveis contribuições. A imprensa, em geral, é um destes principais atores.
A defesa de que sejam aperfeiçoados os instrumentos da legislação para que se evitem atos de irresponsabilidade não pode se confundir com iniciativas que ao final signifiquem redução da liberdade de expressão. Ao instituir no artigo 5º da Constituição, inciso XIV, que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”, os constituintes consagraram um princípio essencial ao pleno desenvolvimento do jornalismo, elemento fundamental da democracia.
Como resposta imediata à decisão do Supremo, foi criada em setembro uma Frente Parlamentar, que contempla quase 200 deputados e mais de 10 senadores. Propostas de emendas constitucionais, as chamadas PECs, tramitam no Congresso para conscientizar a sociedade sobre os riscos do fim da exigência do diploma. Um deles é a quebra do sigilo da fonte, possibilidade, como apontou o noticiário, sugerida pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, durante a CPI do Grampo, no começo do ano. O profundo respeito ao legado de Jobim para a construção da democracia brasileira, sobretudo no período em que exerceu a presidência do STF, não me impede de discordar de sua proposta. O sigilo da fonte representa preceito essencial da liberdade de imprensa, garantido pela Constituição.
A defesa de que sejam aperfeiçoados os instrumentos da legislação para que se evitem atos de irresponsabilidade não pode se confundir com iniciativas que ao final signifiquem redução da liberdade de expressão. Ao derrubar o diploma de jornalista, o SFT pode ter aberto flancos para que se instaure no país uma negligência com o domínio da informação pública.
É indiscutível a importância de termos uma imprensa livre, mesmo com falhas, a uma imprensa engessada por restrições políticas. A primeira tem a chance indelével de aprender com seus próprios erros e ser corrigida por seu público, em um processo simultâneo ao amadurecimento da sociedade. O mesmo não acontece na outra opção.
Você, cidadão, confiaria em uma reportagem assinada por um jornalista sem diploma? Confiaria em um modelo de imprensa com amarras?
*Deputado federal PMDB-RJ.
Fonte: Jornal do Brasil
RIO - Você, cidadão, confiaria o seu filho para uma cirurgia com um médico sem diploma? O que dizer de um advogado que sequer frequentou bancas universitárias e tampouco ostenta a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)? Obviamente que o mesmo vale para o cenário atual da imprensa. A reflexão é pertinente (e urgente), sobretudo por conta do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista após decisão, em junho, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A imprensa tem um papel essencial para a construção da história brasileira, isso desde o Império. Daqueles primeiros pasquins nasceu o processo de democratização do Estado. Foram aqueles pioneiros jornalistas que descortinaram as mazelas sociais e políticas que sempre atemorizaram nossa nação. Após 200 anos da constituição de uma imprensa representativa e com reconhecimento internacional, deparamo-nos com uma postura surpreendente do Supremo. Se o Poder Judiciário ignora a relevância histórica do papel dos jornalistas para o país, o mesmo não se pode dizer do Poder Legislativo.
O fato de representar uma atividade profissional que repercute na vida de todos nós, cidadãos brasileiros, bastaria para que os ministros do STF fossem, em uníssono, favoráveis à obrigatoriedade do diploma, que existe há cerca de 40 anos. Definitivamente, as técnicas de entrevistar, reportar e editar exigem uma qualificação profissional devidamente referendada por um diploma emitido por instituições de ensino reconhecidas pelo Ministério da Educação.
Desde a redemocratização, os brasileiros vivenciam arduamente um processo de aperfeiçoamento da vida institucional. Nesse período, várias crises políticas e econômicas colocaram em xeque as virtudes da democracia, mas em nenhum momento nossa sociedade fraquejou na crença de que esse é o único caminho, se queremos consolidar a maturidade da nossa nação.
O alicerce desse edifício é a Constituição de 1988, obra pela qual muitos brasileiros e segmentos sociais deram inestimáveis contribuições. A imprensa, em geral, é um destes principais atores.
A defesa de que sejam aperfeiçoados os instrumentos da legislação para que se evitem atos de irresponsabilidade não pode se confundir com iniciativas que ao final signifiquem redução da liberdade de expressão. Ao instituir no artigo 5º da Constituição, inciso XIV, que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”, os constituintes consagraram um princípio essencial ao pleno desenvolvimento do jornalismo, elemento fundamental da democracia.
Como resposta imediata à decisão do Supremo, foi criada em setembro uma Frente Parlamentar, que contempla quase 200 deputados e mais de 10 senadores. Propostas de emendas constitucionais, as chamadas PECs, tramitam no Congresso para conscientizar a sociedade sobre os riscos do fim da exigência do diploma. Um deles é a quebra do sigilo da fonte, possibilidade, como apontou o noticiário, sugerida pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, durante a CPI do Grampo, no começo do ano. O profundo respeito ao legado de Jobim para a construção da democracia brasileira, sobretudo no período em que exerceu a presidência do STF, não me impede de discordar de sua proposta. O sigilo da fonte representa preceito essencial da liberdade de imprensa, garantido pela Constituição.
A defesa de que sejam aperfeiçoados os instrumentos da legislação para que se evitem atos de irresponsabilidade não pode se confundir com iniciativas que ao final signifiquem redução da liberdade de expressão. Ao derrubar o diploma de jornalista, o SFT pode ter aberto flancos para que se instaure no país uma negligência com o domínio da informação pública.
É indiscutível a importância de termos uma imprensa livre, mesmo com falhas, a uma imprensa engessada por restrições políticas. A primeira tem a chance indelével de aprender com seus próprios erros e ser corrigida por seu público, em um processo simultâneo ao amadurecimento da sociedade. O mesmo não acontece na outra opção.
Você, cidadão, confiaria em uma reportagem assinada por um jornalista sem diploma? Confiaria em um modelo de imprensa com amarras?
*Deputado federal PMDB-RJ.
Fonte: Jornal do Brasil
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